Altra King MT – Minimalismo “the american way”

Para começar com esta coisa de reviews nada como umas sapatilhas diferentes, duma marca não muito vulgar na Europa mas bastante popular nos EUA, a Altra, que tem como principais imagens de marca o “zero drop” e o “footshape toe box”.

O zero drop. Drop consiste na diferença de altura entre o calcanhar e a frente do pé, que ao contrário da maior parte das marcas, nas quais o calcanhar está um pouco mais afastado do solo, no caso da Altra fica à mesma altura. Isto, segundo a Altra promove uma maneira mais eficaz de correr, quase como se corrêssemos descalços, alinhando o corpo de maneira a sentir menos impacto e fortalecendo os músculos dos gémeos e o tendão de Aquiles. A verdade é que os gémeos realmente sofrem se não fizermos bem a transição para zero drop porque são chamados a mais trabalho.

O Footshape Toe Box consiste numa parte da frente bastante ampla de modo a que os dedos dos pés possam se expandir. De novo aqui temos a tentativa de imitar correr descalço, já que não tendo nada para apertar os nossos dedos, eles vão ter a tendência de abrir.

Todas as sapatilhas da Altra têm sempre estes dois pontos em comum, zero drop e são MUITO largas na frente. Em relação ao que estamos habituados na Europa, este tipo de design é bastante estranho, e é normal ter reações do tipo: “mas que coisas mais feias”, mas é tudo uma questão de hábito, e eu até as acho bastante giras.

Convém salientar que tanto no site da Altra como na no interior das caixas das sapatilhas vêm instruções de como fazer a adaptação ao zero drop de maneira a evitar dores musculares e quem sabe lesões, especialmente nos gémeos e no tendão de Aquiles. Um conselho, sigam as instruções, levem o vosso tempo e não vão querer outra coisa. A Altra aconselha um período de transição de entre 4 a 6 semanas: altrarunning.com/run-better

Imagem tirada do site: www.altrarunning.com

Mas vamos ao que interessa, as King MT

Estas são as sapatilhas com menos amortecimento de trail running da Altra e, pela minha experiência, as com mais agarre. Também são as com design mais peculiar, com uma tira em velcro para “abraçar” melhor o pé nas subidas e especialmente nas descidas mais inclinadas.

São umas sapatilhas para distâncias curtas e terrenos molhados e/ou com lama. Também penso que vão se dar bem nos kms verticais, mas isso vou testar no Km Vertical de Câmara de Lobos e depois digo qualquer coisa.

Da esquerda para a direita Altra King MT, Altra One Peak 3.0 e Altra Olympus 2.5. Do menor ao maior amortecimento.

Primeiro impacto:

Quando as tiramos da caixa e recuperámos do impacto visual, sim porque as King não deixam ninguém indiferente, a sensação ao toque é como se estivéssemos a agarrar num sapato de plástico. Isso deve-se à construção em Ripstop, um tecido relativamente impermeável que também é utilizado para fabricar outro tipo de equipamento, tal como mochilas e casacos. É bastante agradável, mas é estranho, é como se tivesse uma capa por cima das sapatilhas. São bastante moles, tipo chinelo impermeável. A única rigidez de nota é dada pela placa anti-rochas que impede que a sola se dobre muito lateralmente. Acho que sem a placa daria para dobrá-las e metê-las no bolso. São fáceis de calçar e no pé são leves parecendo mais leves do que os 300 gramas anunciados.

Uiiii grande sola… mas o velcro, hum…

Ajuste e Conforto:

Para umas sapatilhas tão baixas (19mm) são bastante confortáveis, incrivelmente confortáveis, para isso a palmilha com 4mm também contribui para esse conforto. A baixa altura ao solo significa que sentiremos todas as saliências, pedras e raízes, mas a placa anti-rochas e a meia sola, que é feita de um novo material da Altra, EGO, fazem com que a experiência nunca seja dolorosa e sim bastante agradável. A meia sola também é bastante reativa, nos impulsionando para a frente sem grande dificuldades (e com um sorriso na cara).

O ajuste é o típico da Altra, aconchegado o quanto basta no calcanhar e meio pé, a língua é relativamente acolchoada e protege bem o meio pé quando apertamos a sapatilha, nunca chegando a magoar. Os cordões planos também fazem um trabalho razoável em manter a sapatilha apertada. À frente é tudo à larga, mesmo à americana, os dedos movem-se sem dificuldade, podendo ser estranho, para quem não está habituado, ter tanta liberdade na parte da frente. Felizmente o tecido interior no calcanhar, que desliza facilmente quando se calça a sapatilha e agarra no movimento ascendente, assim como a facilidade de aperto no meio pé, conseguem um ajuste bastante bom. A juntar a isso ainda temos o Foot Lock Strap, uma tira de velcro que serve para apertar mais o meio pé que realmente funciona. Quando enfrentamos pisos mais técnicos e com inclinação acentuada, e se a sapatilha tiver alargado qualquer coisa como é normal, basta um aperto para conseguir mais ajuste e impedir o pé de deslizar. A tira poderia ser mais curta, pelo menos para o meu pé, mas aí, todos os pés são diferentes. De salientar também que em regra geral as Altra têm um tamanho pequeno. No meu caso que corro normalmente com o 43, nas Altra uso sempre o 44.

Pausa para apreciar a vista… e as King

Sola:

A estrela das King. Sola Trailclaw feita de Vibram Megagrip. Tacos agressivos de 6mm direccionados para empurrar na frente e para travar do meio para trás. Como é habitual com as solas Megagrip, esta sola agarra a tudo, seja em seco, em molhado, rocha molhada, a subir, a descer, a andar de lado… O agarre é simplesmente brilhante, talvez as sapatilhas que experimentei com mais agarre. Os tacos de 6mm espaçados tornam também esta sola bastante eficaz na lama, que é onde a Vibram tem talvez o seu ponto fraco, desprender lama. Neste caso a lama fica agarrada sim, mas com 6mm, há sempre taco para agarrar qualquer coisa. Na minha experiência com as King escorreguei em duas ocasiões, uma vez nas Funduras, por ter entrado de calcanhar numa poça de lama e uma vez no Trail da Boaventura, numa descida também com lama que mais parecia uma rampa de lançamento. Não caí, por isso passaram no teste.

As King estão bem é na lama

Impermeabilidade e transpirabilidade:

As King não são impermeáveis, mas são quase. É difícil ficar com os pés molhados, a não ser que andemos dentro de poças de água, e mesmo quando eles se molham, a secagem é relativamente rápida. Em relação à transpirabilidade, parece-me que libertam bem o calor, mas ainda não corri com elas num dia muito quente. De qualquer maneira, as sapatilhas que tenho experimentado ultimamente são em regra geral quentes, por isso penso que as King andam dentro da média.

As polainas são eficientes e o sistema de colocação bastante fácil de usar

Design:

Não é o mais importante, mas o pessoal gosta de correr bonitinho não é mesmo? Para mim, e para o meu gosto pessoal acho-as lindas. Mais nada 🙂

Conclusão:

Adoro as King, não serão sapatilhas para fazer longas distâncias (dito isto, em 2017 houve um atleta que fez o MIUT com umas) nem para todas as ocasiões. Mas para Kms Verticais e corridas curtas em piso molhado e com lama serão a minha primeira escolha.

Alexandre Vieira

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